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À laia de Diário

Tenho que reconhecer que quando iniciei este blog não gastei muito tempo a sistematizar, a definir estilo e conteúdos. À primeira vista poderia ser um diário, quase pessoal. Por acaso os textos não têm trilhado muito esses caminhos, mas hoje é o que vai acontecer. E então vamos lá a isto…

Pois estava eu muito bem descansadinho num serão que se parecia com um outro qualquer, no Domingo passado, quando começo a sentir uma dorzita na base de um dente. Nem foram precisos dez minutos, seiscentos míseros segundos, para que a dorzita que talvez não fosse nada se encorpasse e se transformasse numa evidente infecção. Na manhã seguinte a coisa era já ameaçadora. E é nestas alturas que sentimos o que é estar numa terra que não é a nossa. Onde ir, a quem pedir ajuda… racionalizar… preciso de alguém que fale inglês e que não me cobre os olhos da cara por uma coisita destas. Só preciso de uns antibióticos, pensava eu. Apenas para me aguentar mais duas semanas, e depois vou nas calmas à minha dentista habitual. Bem, pesquisa na Internet, dicas de amigos e acabo por telefonar para um consultório de uma dentista com aspecto simpático, website em inglês, bem organizado, com preços e tudo. Aqui, as coisas são um bocado diferentes do que se passa em Portugal. Os médicos fazem questão de comunicar com os pacientes e potenciais pacientes logo desde o primeiro momento. Já tinha achado estranho quando no ano passado em busca de uma consulta de especialidade, me tinham dado o número de telemóvel do médico e “agora fala com ele e entendam-se”. Desta vez foi quase a mesma coisa, mais especificamente “a minha médica já te telefona de volta”. Ora o de volta levou duas horas, mas quando chegou foi uma alegria. Sim, era possível marcar uma visita para o próprio dia, daí a duas horas e meia.

Agora, abre parêntisis. Tinha uma reunião com uma cliente, e estava-me aliás a dirigir para o café onde tinhamos combinado o encontro quando me telefona a dentista. Feitas as contas, equacionadas as hipóteses, decidi mesmo assim apresentar-me ao trabalho. Achei que tinha tempo. Dos negócios não contarei detalhes, mas após despachar o assunto do dia, ficámos um pouco à conversa, para minha grande sorte. Ali em quinze minutos, levei uma aula práctica de como iniciar um negócio na Chéchia. E como as condições são mais favoráveis do que em Portugal! É verdade que a burocracia checa é lendária… mas os termos gerais, meus senhores, que delícia. Vamos resumir. Para ser empresário em nome individual, aquilo que sou em Portugal, basta ir às Finanças, largar 1000 Czk (40 Eur) e está feito. Só que aqui pode-se trabalhar no que apetecer. Não há cá categorias. Posso ser informático, mestre pasteleiro e guia turístico, ao mesmo tempo. O Estado não quer saber. Desde que se pague os impostos. Depois, Segurança Social e SNS, são para baixo de 75 Eur por mês. IVA, só se paga se se chegar a 40.000 Eur por ano. É mesmo isto que eu quero. Adeus Estado Português, do meu não vais ver mais durante uns tempos.

Sai do Sudicka com um sorriso na boca e um olho no relógio. Tinha que estar do outro lado da cidade dentro de vinte minutos. Um percurso que de eléctrico levaria uns 30 minutos. Mas estava satisfeito, sentia-me uns mãos largas e decidi conceder-me um mimo: chamar um táxi. Uh oh! Big mistake! Não tinha noção do inferno que é o trânsito nesta cidade. Tomar nota mental: está reconfirmado que nunca quererei um carro na minha vida checa. Quarenta minutos e 16 Euros (!!!) depois, cheguei.

E aquilo foi só “boas” notícias. O dentinho que tinha perdido a “coroa” artificial do outro lado da boca, era para arrancar. E aquele que me doia… oh, isso era uma “big big infection”. Ora desde pequenino que aprendi que em dente infectado não se toca. Primeiro os comprimidos, e depois então vai-se ao castigo. Não aqui. Saca da parafernália, e lá vai disto, para meu horror, desprovido para preparação psicológica elaborada que sempre preciso para me sentar voluntariamente na cadeira da verduga. mas tenho que reconhecer: não foi assim tão mau. Ali no castigo com duas checas giraças, uma loura e outra morena, como cantava o saudoso Marco Paulo. Não foi mau até à hora da conta. Pois então lá vai disto, mais 80 Eur. Feitas as contas, a alegria da conversa de café estava quase a entrar em terreno negativo. Pus-me na alheta, e ainda fiquei a dever 100 Czk, que não levava tamanha fortuna na carteira. Fica para a próxima, que pelo menos duas visitas posteriores são necessárias para terminar com o dentinho infectado. Arrancar o outro nem quero pensar para já, deixa-o estar.

E quando cheguei a casa, a coisa estava negra. A doutora tinha toda a razão. “Big, big infection”. Dizia ela que para 4ª Feira me sentiria melhor. E eu não quis adiar a cura. Fui logo servir-me dos antibióticos à farmácia mais próxima (vá lá, alguma coisa em conta neste dia de despesismo – 7 Eur) e de papas de bébé para os dias complicados que se avizinhavam.

A partir daqui foi hibernar durante 3 dias. Dormir, antibiótico. Ler, dormir. Internet. Antibiótico. Dormir. E aqui estou eu, hoje. Depois do despertar dos dias negros. Levantei-me, arrumei o quarto, lavei a louça. Fui jantar fora, que bem merecia uma carninha. Depois, experimentar uma casa de chá que é uma categoria, mesmo aqui ao virar da esquina. Finalmente, foi chegar a casa de pança cheia, acender velas à farta, e colocar a musiquinha calma de Diana Krall, enquanto o aquecedor fazia o seu trabalho e elevava a temperatura para níveis muito, mas muito, agradáveis.

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Nova casa, nova vida

Pois é. Este vosso amigo tem andado tristonho, cabisbaixo. E porquê? Tem-lhe faltado um tecto a que pudesse chamar de seu. Mas isso agora acabou. É verdade que será difícil substituir o lar de três anos na Na Struze. Mas não se mudou para mal. Agora é para os lados de Letna, uma zona simpática, paredes meias com os parques de Stromovka e Letna, de onde se pode atingir a pé, com alguma boa vontade, o Castelo e a Praça da Cidade Antiga. Comércio não falta e, dizem os mais experientes, há para aqui restaurantezinhos simpáticos até dizer chega. A paragem de eléctrico fica a um minuto, e lá passam nada mais nada menos que duas carreiras nocturnas, um elemento chave nesta cidade. Do outro lado da rua um supermercado Bila, e mais abaixo uma loja de conveniência “non-stop”.

Agora vive-se a fase de descobrimento. Está na altura de explorar estas paragens. Ganhar rotinas. Marcar os sítios mais simpáticos, experimentar acessos. Entre as quatro paredes é necessário melhorar, construir o ninho, até porque o Inverno está ai a chegar. Por isso hoje foi dia de IKEA, na companhia da minha boa amiga checa Klara. Nada como o conselho feminino nestas coisas, e ainda usufruir de uma ajudinha para ultrapassar barreiras linguisticas.

E embora não interessando aqui para nada tenho que desabafar: hoje era para ter ido para Oslo, durante cinco dias. Mas ainda aqui estou. Graças à porcaria de tempo que se pôs na Noruega. A previsão é de chuva e mais chuva, entrecortada com neve para animar, e um frio de rachar. Não obrigado. Perderam-se os 25 Eur dos bilhetes mas controlaram-se as perdas. Se tivesse ido vinha uns 100 Eur mais pobre e provavelmente nada bem tratado pelos Elementos. Fica para a próxima.

O entra e sai

Quando o Homem se movimenta, os seus procura. É assim em Praga, e em qualquer local onde exista uma comunidade internacional numerosa. Mas a ideia de muitos, quando deixam os seus países de origem para trás, não é procurarem compatriotas para sustentar a nova rede social que se adivinha. “Para isso ficava lá”, é o pensamento por vezes verbalizado. Então o que se passa a seguir? Acaba-se por se procurar um lugar no círculo de outros párias, cidadãos do mundo, que escolheram Praga para passar estes dias, meses ou anos das suas vidas.

A experiência ganha assim um reforço de monta. Já não é só viver uma nova sociedade, sentir um povo diferente, uma cultura distinta. Com as devidas proporções, o contacto com a entidade Checa é complementado com um mosaico de nacionalidades. As informações chovem, a aprendizagem é permanente. A cada serão em redor de umas cervejas vai-se absorvendo todas estas vivências. E dou por mim rodeado por gentes de paragens distantes: russos, ucranianos, suecos, franceses, indianos, tadjiques, azerbeijanis, gregos, norte-americanos… e a lista continua, demasiado extensa para uma apresentação exaustiva.

Mas a riqueza de tal círculo social tem um preço: a sua fragilidade. Porque uns chegam, e outros partem. Em poucos meses as faces em redor da mesa mudam, e muito. E quando chega a hora dos nossos amigos mais chegados, mexe conosco. Uns, voltam a ser encontrados. Ou porque regressam, ou porque nos visitam. Ou talvez porque esbarramos em qualquer outra paragem do mundo. Outros serão uma imagem crescentemente difusa da nossa memória.

Hoje foi um destes dias, em que se diz “adeus”, ou mais provavelmente “até breve”. Derek é um “old timer” destas andanças de Praga e partiu para o seu Canadá. O plano diz que será por uns quantos meses apenas, até depois do Inverno, mas nestas coisas nunca se sabe. Como manda a tradição, houve “meeting”, e foi dos bons. O local foi o U Sadu. Isto apenas para que conste nos registos. O que interessa é que o Derek, companheiro de tantas farras e aventuras se foi.

Grotesco e Mau Tempo

Os dias de Outono em Praga são tudo menos de Outono. Não há memória entre os meus contactos locais de um Outubro assim. Vejam só que até tem nevado! Em Outubro! Coisa que não costuma suceder antes dos últmos dias de Novembro! E vai dai, nada de passeadas urbanas de fim de tarde, nada de explorações no meio rural checo. Com o tempo assim, é ficar em casa, bem abrigado. É que se juntou o frio à chuva… mas pior que isso, o vento veio ajudar à festa. É que se as baixas temperaturas, mesmo a rondar os zero graus, não amedrontam ninguém por aqui (até porque zero graus em Praga se sentem como 8 graus em Portugal), já a chuva molha mesmo… e irrita, chateia. Quando a tudo isto se junta vento, aquele acelerador térmico infernal, então está o caldo entornado: o frio torna-se glaciar, e a chuva espalha-se pelo ar, passa a haver água em todo o lado.

Mas mesmo com este cenário, tive que sair por um bocado. Acho que ninguém consegue ficar em casa um dia inteiro sem começar a sentir-se atrofiado, e não serei excepção. Já estava em Praga há uma semana e ainda nem tinha visto o rio, visitado a minha antiga zona, a mais bonita da cidade (Ok, vá lá, uma das mais bonitas…). E então enchi-me de coragem e fui para a rua. Aquilo que via pela janela atingiu-me em cheio na cara. Não estava preparado. Era pior do que calculava. Mas lá fui… e dei por mim a atravessar a ponte Karlovo. O cenário ali era… grotesco – daí o nome desta entrada no blog.

Mas vocês conseguem imaginar, conceptualizar, visualizar… uma ponte mais antiga que os antigos, um monumento histórico, património da humanidade, a sofrer obras de manutenção estruturais, com andaimes e o diabo a quatro… e como se não bastasse, com a intempérie implacável a cobri-la num turbilhão de vento e chuva… e por cima de tudo isto… uma multidão a perder de vista de turistas. Em grupo e a título individual, numa massa compacta, caminhando com faces baixas, olhos postos no chão. E estava eu nisto, a reflectir sobre o patético da situação, quando passa por mim um extenso grupo de russos. E a guia do rebanho levava ao pescoço um par de colunas de som, que debitavam em altos decibeis o que ela ia tentando dizer por um microfome pendurado perto da boca. Os seus cordeiros, claro, nem fingiam prestar atenção. Porque russos são gente muito habituada ao mau tempo, mas também ao aquecimento central, e quando levam com este frio, este temporal, como pessoas que são, estão pouco preocupadas com explicações de cicerone.

Russos deixados para trás, passam os japoneses. Não sei se melhor se pior: um em cada quatro ou cinco leva a cara coberta por uma máscara tipo de cirurgião. Deve ser a gripe A que lhes mete medo. Esta gente de palmo e meia acha-se capaz de desafiar o Criador com uma máscara de cirurgião, e por ali anda, de certa forma indiferente ao temporal… mas muito preocupados com a gripe A, que na República Checa não fez ainda uma vítima que seja.

Depois disto ainda fui aonde me prestava dirigir quando comecei a atravessar a ponte: à livraria que vende livros em inglês. Mas não encontrei nada que me cativasse, e voltei para casa tão depressa como pude. Desta vez a salvo do grotesco, por outros caminhos.

O Outono dá-se ares de Inverno, nesta Praga que tão bem se dá com a estação das folhas douradas. O dia acordou cinzentão, houve chuva. Tal como ontem. E, a acreditar na previsão metereológica, a coisa vai-se manter. O que é sempre uma espécie de futurologia, e se o digo, não é pelo vão prazer de cortar na casaca dos mestres do tempo, mas porque aqui, na Europa Central, as coisas são mesmo assim: não dá para fazer previsões.

O dia foi uma espécie de rescaldo, uma cura da “overdose” social do fim-de-semana que começou cedo, logo na 6ª. Duas festas, duas longas noites e dois jantares depois, foi dia de sossego, passado pachorrentamente no Café Meduza, de volta de trabalho. Já para o final da tarde recebi a visita do meu amigo Pavel, que me fez companhia a devorar as pizzas do Kmotra. Depois, para acabar o dia, demos um salto ao Globe, onde visionámos o filme Oldboy.

Outra vez, de volta

Depois de mais um Verão em Portugal, como mandam os costumes e as necessidades prácticas, aqui estou de novo. Fazendo as contas, é a oitava vez que aterro no aeroporto de Praga. Mentiria se disesse que em todas as ocasiões anteriores a história se repetiu. Não, foi quase sempre diferente, mas agora, por fim, a rotina está-se a instalar. Isso na chegada, porque em Praga as coisas vão mudando. Desde quando é que o revisor de bilhetes entra no autocarro e dispensa os turistas de fiscalização?? Não! Algo está errado. A tradição manda que seja ao contrário: os estrangeiros são o saco de pancada dos revisores, sempre foram… o que se passa aqui? E como é que se pode compreender que o “picas” seja sorridente e espalhe “Ok’s” pelo espaço de acção? Decididamente, Praga muda. Já não bastavam os polícias que começam a falar inglês, os condutores que se vão apercebendo do conceito de “passadeiras”. Agora até os revisores são simpáticos.

Estou a ficar com amigos. O antigo apartamento, lar de tantas aventuras, tantos sentimentos, tanta vivência foi-se. Adeus Na Struze. A memória perdurará, sempre. E com isto, ainda não visitei a Praga dos sonhos, o centro, o icone turístico, a cidade de encantar. Nas idas e vindas, entre as conversas que urge pôr em dia e obrigações diversas, não vi tão pouco o rio Vltava, a imagem de marca de Praga. E já se passaram três dias. O primeiro, foi para recuperar… e para comparecer numa festa com muita cerveja… o segundo, para trabalhar…. o terceiro, para ir a Krivoklat (já vamos aos esclarecimentos) e para, imaginem só, comparecer a uma festa com muita cerveja.

E pois, Krivoklat. O meu percurso de hiking favorito, tão equilibrado, tão diverso, tão belo. Começando na castiça aldeia de Zbecno, e depois caminhando lado a lado com o rio Berounka, passando junto às pictorescas “chatas” (casas de campo checas, para usufruto de fins-de-semana e férias), entrando pela montanha adentro, rodeado de bosques de altas árvores, até chegar lá acima, de onde a vista sobre o vale impera. Por fim, chegando ao castelo de Krivoklat, e regressando no comboio campestre, de duas carruagens apenas, a fazer lembrar as travessias dos Alpes. Tive que lá ir hoje, porque amanhã terei que por lá passar. Hoje em exploração, amanhã em trabalho. Os caminhos-de-ferro encerraram um troço essencial para alcançar Krivoklat, e como amanhã tenho clientes a irem lá comigo, tive que me largar a encontrar alternativas de transportes. Correu tudo bem. Depois das primeiras horas em Praga a serem algo frustrantes, hoje o dia foi em cheio. Deu para lavar os pulmões e a alma.

Pelo amor a Praga

Acabei agorinha mesmo de ler um livro. Já o tinha há uns anos na prateleira, mas por razões desconhecidas foi ficando para trás até que… de novo sem motivo aparente, apareceu na minha mesa de cabeceira, onde foi quase literalmente devorado em poucos dias.

For the Love of Prague é o testemunho de Gene Deitch, um americano que se enamorou por uma mulher checa durante uma viagem de negócios, e cuja vida foi irremediavelmente mudada, ali e naquele momento. Durante trinta anos foi o único cidadão dos EUA (ainda não foi criada uma palavra simples para descrever as pessoas naturais daquele país) residente na Checoslováquia, e viveu em choque cultural constante durante todo esse tempo. O livro é uma sequência impagável de episódios, narrados quase sempre com grande humor, que caracterizam uma República Checa que já foi, mas que urge compreender para melhor entender a de hoje.

Entre as peripécias pessoais, as observações de um estilo de vida que nos é, hoje e aqui, completamente estranho aventuras e algumas considerações demasiadas vezes, enfim, descabidas, isto é o que o leitor extrai do livro. Gene, como autor e como crítico do sistema e do país que o acolheu padece de dois problemas fundamentais: primeiro, a sua fixação em Praga fez-se por amor a uma pessoa, não por paixão pela cidade, pelo povo ou pelo país; segundo, não conseguiu nunca despir-se da sua roupagem americana, ao longo de tantos anos, incapaz de se adaptar de boa vontade a uma outra cultura e forma de estar.

Mas estes são dois pequenos pontos negros numa prosa engraçada, que agarra o espectador pelos colarinhos, enquanto ele chega a rir à gargalhada com os episódios narrados. É uma leitura que se aconselha a todos os títulos: divertida e elucidativa, estabelece um quadro vívido de uma realidade que nos rodeia hoje. É um testemunho provavelmente único, que oferece uma perspectiva exterior sobre a cultura checa que hoje nos abraça de forma tão diferente mas ainda com tantos pontos em comum com esta herança silenciosa. São as aventuras e desventuras de um estrangeiro que nunca parou de se surpreender com o que foi oferecido durante cerca de  quarenta anos.

No fim, ganhei momentos de verdadeiro prazer de leitura e uma boa colecção de apontamentos. Pormenores a não esquecer, ideias para artigos e até locais a ver em Praga, quando a oportunidade surgir. Recomenda-se!

Aqui fica o linkzinho da Amazon para quem quiser dar uma vista de olhos:

O Parque Natural de Divoká Šárka estende-se por uma vasta área, a este da grande artéria que liga o centro da cidade ao aeroporto. O seu nome significa algo como “indomável Šárka”, numa alusão mítica a uma heroína do Século VI ou VII. Segundo reza a lenda, por essa altura o poder encontrava-se nas mãos das mulheres, sob a orientação da princesa Libuse. Com o falecimento desta, os homens rebelaram-se, e o “partido” das mulheres estabeleceu-se na zona norte da actual Praga, num periódo marcado por uma aparente guerra civil. Aparentemente as mulheres levavam a melhor nas refregas, até que o jovem Ctirad, apontado pelo principe Premsyl para liderar as forças masculinas, começou a revelar capacidades militares que preocuparam Vlasta, a sucessora de Libuse. Então, a sua ajudante Šárka ofereceu-se para armar uma armadilha a Ctirad. Os pormenores divergem, mas terá sido no lugar onde hoje se localiza este parque que Ctirad sucumbiu às mãos de Šárka, o que de resto não foi de grande vantagem, uma vez que Premsyl acabou mesmo por levar a melhor. Por fim, Šárka ter-se-á suicidado, atirando-se do topo de um dos rochedos aqui existentes. As causas apontados para o suícidio variam: uns dizem que ela se apaixonou pela sua vitima e desistiu de viver sem ele; outros, que Šárka simplesmente não conseguiu enfrentar a desonra da derrota eminente.

Seja como for, a verdade é que temos aqui um belo espaço. A beleza natural que emana de um bosque destes é algo que não pode ser descrito por palavras, e mesmo as fotografias não farão nunca jus ao ambiente que ali se encontra. As árores, altas e frondosas, oferecem uma sombra quase permamente.

Aqui e acolá um pequeno banco pode ser encontrado, num convite irrecusável para uma breve pausa, quiçá para uns momentos de leitura, ou apenas para parar e escutar os sons da natureza: o restolhar dos ramos ao sabor do vento, o cantar da passarada, o esquilo que célere sobe pelo tronco do enorme carvalho.

Em Divoká Šárka as mais incríveis experiências podem suceder. Certo dia deparei-me com um pastor, um jovem de aparência letrada, que tocava flauta para o seu rebanho misto, de cabras e ovelhas. Sentei-me ali por perto, ele esboçou um ligeiro sorriso, e enquanto me deliciava com um banho de sol e escutava aquela encantada música, todos pareciamos fazer parte de um mundo mágico. O encantador flautista, os animais… e eu… todos partilhando em serenidade da companhia uns dos outros. A bicharada ruminava ali em meu redor, não se importando absolutamente nada com a visita inesperada. E o pastor, com a sua barbicha “à três mosqueteiros”, continuava tocando. Assim se passaram uns vinte minutos. E, digo-vos, o encantador tinha os seus méritos, porque foi dos momentos mais mágicos que vivi em Praga.

Suores e Arrepios

Há medida que mais uma gota de suor, provavelmente a milionésima de hoje, me escorre pelo peito, apercebo-me que hoje ainda não sai de casa. Passar o Verão em Portugal é isto. Suar, suar e suar. Feder, permanentemente. E suar mais. Parece que pela minha Pátria adoptiva as coisas não são muito mais frescas, e, coitados, nem têm o mar para dar uns mergulhos e arrefecer. Mas a diferença, a abismal diferença, é a variedade. Enquanto que no meu país de origem existem dois sabores, o quente e o frio, na República Checa há quatro variantes: Outono, Inverno, Primavera, Verão. Vá, deixem-se de brincadeiras, eu sei que em Portugal também os há. O problema é que isso é só no papel. Na realidade, um dia um gajo está a gelar nestas casas portuguesas que não foram construidas para lidar com qualquer frio abaixo dos 20 graus, e na semana seguinte está a suar as estopinhas. E um e outro ciclo arrastam-se por seis longos meses.

Já na Europa Central, as quatro realidades climáticas estão lá. No Outono tem-se uma paisagem e umas características climáticas bem claras, que inspiram um determinado estilo de vida. E quando o Inverno chega, tudo muda… e quando a Primavera chega, há alterações efectivas, e, finalmente, ao chegar ao Verão não restam dúvidas, passou-se de Estação. E tudo isto é precioso, porque a alminha humana precisa da côr das Estações, da variedade no clima, para não chegar a enjoar, coisa que cronicamente me acontecia em Portugal e ainda sucede, porque do Verão no forno ninguém me safa. E não pense o leitor que isto é uma mariquice, um assunto de quem não tem mais nada que fazer nem ideias para escrever. Nada disso. É mesmo importante na vida d’um gajo. É que isto não é só anotar temperaturas e resmungar que está calor, ou está frio, ou está a chover. Em Praga, tudo muda, sensivelmente de três em três meses. O que as pessoas fazem, os humores colectivos que se sentem no ar, a paisagem… enfim… a alma da cidade renova-se quatro vezes por ano, e ninguém poderá dizer que um sítio que renasce assim não é profundamente fresco.

P.S. – E sabem que mais? Assim como assim, nunca sinto tanto frio no Inverno checo, com as suas temperaturas a irem a pique aos 20 negativos, do que com os nossos mixurucas 2 graus. A sério… e não é milagre. Ora pensem lá nisso……

Visitar-praga.com.pt

Hoje foi o dia em que abri a quem quiser ver o meu último projecto virtual, completamente relacionado com Praga. Visitar-praga.com.pt é filho da paixão que sinto por esta cidade. O seu possível sucesso comercial é coisa de somenos importância. Poderão não cair Euros e Coroas, mas até ver será projecto para continuar por muitos e bons anos. Como é indicado no seu sub-título, trata-se de “um site de escritos, imagens, conselhos e tudo o mais o que um viajante possa precisar” para visitar Praga. Fica aqui uma cópia do editorial, se assim o pudermos chamar:

Visitar Praga é um projecto unipessoal. O meu nome é Ricardo Ribeiro, tenho quarenta e tal anos, e sou o seu criador. O seu objectivo é auxiliar todos aqueles que se dispõem a visitar Praga. As suas raízes mais profundas terão origem em 2005, quando visitei Praga pela primeira vez e me apaixonei pela cidade, pelo país e pelo povo Checo. Daí em diante foi aproveitar todos os dinheirinhos e tempo disponível para regressar, uma e outra vez, até que a ideia de me mudar, pelo menos parcialmente, para esta grande cidade começou a ganhar forma.

Esse passo veio de facto a ser dado em 2007, e desde então a minha vivência em Praga tem-se caracterizado por uma riqueza sem fim, num quotidiano de exploração e descoberta. Sendo webdesigner profissional (se aprecia o meu trabalho e está a precisar de um site a sério…) a ideia de criar uma página de Internet dedicada a Praga em língua Portuguesa teria que surgir mais cedo ou mais tarde. Depois de um par de falsos arranques, gorados por falta de tempo e de motivação, nasceu finalmente, com toda a pujança, esta Visitar Praga. Estávamos em Julho de 2009.

Para além da carolice essencial para promover um projecto desta natureza, existe uma razão comercial por detrás de Visitar Praga: a potencialização publicitária de um outro projecto meu, o Czech Fun Fan. Trata-se de um grupo de amigos dispostos a conduzir visitas acompanhadas a lugares ermos e mal conhecidos dos estrangeiros nos arredores de Praga e pelo país fora. Usando transportes públicos comuns, pretendemos potenciar o contacto com as populações locais e seus mais genúinos costumes e modos de vida. Tudo isto a preços muito atractivos, e com as actividades disponíveis em Inglês e Russo, para além do Português.

Todos os textos publicados em Visitar Praga são da minha autoria, assim como as imagens que acompanham os artigos e que fazem parte das galerias de imagens em exposição. Pretendo partilhar toda a minha experiência como habitante honorário de Praga, e as informações disponibilizadas são por isso algo subjectivas, e por vezes estarão desactualizadas, uma vez que na maior parte dos casos reflectem uma experiência localizada no tempo. Os conteúdos são publicados em continuidade, com uns quantos novos textos e actualizações em cada semana. Alguns são redigidos practicamente de memória, outros, reportam experiências recentes enquanto algumas das matérias envolvem um trabalho de pesquisa mais ou menos profundo. Com o tempo é provável que a estrutura original do website, bastante simples, seja enriquecida. Existem inúmeras ideias, mas só o futuro dirá quais poderão ser concretizadas.

Se tiver alguma dúvida relativa a Praga, sinta-se à vontade para me contactar. A criação de uns fóruns de discussão anexados a este website é uma possibilidade de futuro. Enquanto isso não sucede, pode usar o eMail para colocar as suas questões.

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