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A Árvore de Ferro

Hoje fui a Petriny. Não confundir com Petrin. Petriny fica nos confins da cidade, tão longe como os eléctricos alcançam. Mas fui lá, porque queria visitar um pequeno cemitério, tão pequeno como o meu jardim em Portugal. E o facto não mereceria uma entrada neste blog não fosse o cenário com que me deparei (infelizmente a câmara ficou em casa): a rampa de acesso ao portão de entrada encontrava-se coberta por um manto de neve, fresca, branca, suave. Eram bem trinta centímetros de neve, ao longo daquela subida. E tão alva, tão uniforme, que o sentido tridimensional quase que se perdia. Dava dó, arruinar aquela imensidão plana. Mas teve que ser.

À chegada ao portão a magia intensificou-se. Toda a área do terreno se encontrava nas mesmas condições que o acesso. Um cedro anão vergava-se sob o peso da neve, as suas pernadas a tocar o solo, tendo criado pequenos abrigos no interior dos quais o solo aparecia escuro, térreo, sem traço do branco omnipresente. Mas o mais impressionante era aquela campa, centenária, coroada por uma cruz de ferro imponente, com bem dois metros de altura. E ali ao lado tinha crescido uma árvore, tão determinada em ocupar o seu espaço que fez um pacto com o metal ali deixado pelo humano: abraçou-o até ao limite, com o seu tronco. Engoliu-o, vendo-se sair de um e de outro lado as hastes da cruz. Uma fusão inacreditável, total. Agora, tento ganhar coragem para voltar outro dia, equipado com a devida máquina fotográfica. Mas bom seria se caisse por ali outra camada de neve, para o prazer de revisitar ser meticulosamente redobrado.

Hradec Králové

Com mais um fim-de-semana a aproximar-se, dei por mim desafiado pelo bom amigo Clabbe, o gigante sueco, para um dia fora da grande cidade. Seria Sábado, e o destino ficava a debate. Falou-se em Plzen (Pilsener), mas a escolha acabou por incidir sobre Hradec Králové, uma pequena cidade com uma grande História, a cerca de 50 km a Oeste de Praga. Para a festa se animar, juntou-se um grupo mais alargado de amigos internacionais (uma checa, uma azerbeijani, um francês e dois belgas, a juntar ao português e ao sueco) e foram comprados os bilhetes de autocarro.

Acordar e sair para as ruas de Praga às oito da manhã de um Sábado oferece sempre um espectáculo curioso.  Numa normal cidade portuguesa, as pessoas que por ai andam a tais horas são basicamente almas que se arrastam para um local de trabalho indesejado. Já aqui, para além desses, que se tornam uma minoria, sa carruagens de metro e os eléctricos enchem-se de checos que vão para o campo. Caminhada, ciclismo ou esqui não importa. Nem os muitos graus negativos. De todas as idades e géneros, ai vão eles, ávidos do contacto com a natureza, do exercício físico. Uma diferença substancial para o cenário português, onde o desporto é de sofá e o contacto é mais com o centro comercial.  Nota avulsa, para corolar este apontamento: e que tal uma freira, vestida como tal, viajando no metro com o equipamento completo para um dia de esqui nas montanhas e mochila às costas. Pois é… parece brincadeira mas não é. Foi com essa visão que me despedi de Praga.

Viajar na Students Agency desperta sempre curiosidade. Como é que uma empresa consegue expedir um autocarro por hora para uma cidadezinha como Hradec Králové, equipado com televisões, internet sem fios gratuita, serviço de hospedeira, venda de snacks e bebidas a preços simbólicos (mais reduzidos do que no hipermercado)… e tudo isto por cerca de 2 Euros…?

O dia passou-se bem. O frio, a rondar os oito graus negativos, mordeu um pouco a pele, sobretudo nas pernas e mãos, mas não impediu a plácida exploração das ruas da cidade. O rio que a cruza foi encontrado completamente congelado, em sintonia com o branco omnipresente que pautava a manhã gelada. Mais tarde, com a aproximação do meio-dia, o sol começou a romper, e a tarde desenrolou-se solarenga, mas sempre com temperaturas baixas.

Apesar do interesse de Hradec Králové, hoje uma cidade com uma forte componente universitária, não será o meu primeiro conselho para uma visita fora de Praga. Na verdade, após a primeira excitação, a monotonia das cidades de província checas tem-se vindo a confirmar. Ao contrário do que sucede em Portugal, que sendo um país homogéneo oferece variedade cultural distntinta, na República Checa as coisas não se revestem de grandes variações. A gastronomia mantém-se basicamente estabelecida em redor dos mesmos pratos e as cidades acabam por parecer todas iguais. Existe um centro histórico, cujo apogeu é atingido na praça central. Esta, é sempre muito colorida, bastante atractiva para o estrangeiro que está de passagem. Mas em pouco ou nada difere da praça da cidade vizinha… ou de qualquer outra no outro extremo do país.

Seja como for, estas cidades históricas da República Checa oferecem múltiplos detalhes que não passarão despercebidos aos mais atentos, fazendo as delícias dos fotógrafos amadores. Num dia como o de hoje, a neve e o gelo não poderia deixar de marcar a visita. A nota mágica que o manto branco traz a uma cidade tem um reverso da medalha, e não é só ao nível do conforto pessoal: a monotonia ganha um outro significado, com a predominância da côr alba, que parece sugar a riqueza cromática que noutras alturas se pode observar livremente.

Um dos pontos altos do percurso surgiu com a visita exterior à igreja carpatiana (nem sei se existe esta palavra, mas pronto, refiro-me a uma igreja da região dos Cárpatos – não vá o leitor pensar que acabei de criar mais uma Igreja paralela). Já tinha visto uma assim em Praga, perdida nos jardins Kinsky. Mas a de Hradec Králové é maior e está em melhor estado de conservação, tornando-se mais majestosa.

O almoço decorreu sem glória, num restaurantezinho simpático mas de comida pouco inspirada, a preços nada provincianos. Bebeu-se cerveja Ferdinand, produzida em Nachod, já não muito longe daqui, junto à fronteira com a Polónia. E o goulash… mau. Mesmo assim, feitas as contas, esta foi uma jornada económica: viagem e almoço, que mais despesas não se tiveram, ficaram por cerca de 8 Euros.

E assim se passou o dia. Se inicialmente senti alguma apreensão pelo número de horas disponíveis para explorar a cidade, a verdade é que acabou por saber a pouco. Faltou tempo para inspecionar devidamente as ruazinhas do centro histórico, que prometiam encontrar-se pejadas de motivos fotogénicos. Teve que ficar para uma outra oportunidade… que provavelmente não passará do plano teórico.

DPP

DPP é o acrónimo de Dopravní podnik hlavniho města Prahy. Os transportes públicos de Praga. Trata-se de uma empresa única, que gere a circulação de eléctricos, metro, autocarros… e o funicular que sobe e desce na colina de Petrin. A DPP tem sido uma das maravilhas da cidade. Todos são unânimes: Praga tem uma rede de transportes públicos modelar, inigualável a nível mundial. Não só toda a cidade se encontra magistralmente coberta pelas suas ramificações, como os veículos respeitam os horários afixados nas paragens com o rigor de um relógio suiço. Quando chega a meia-noite, entra em vigor o sistema notcurno, que, com outras características, dá seguimento ao bom trabalho dos seus irmãos diurnos. É uma delícia. Ou era? A questão coloca-se pelos efeitos nefastos que uma série de cortes orçamentais tem vindo a ter sobre este idílico estado de coisas. Vejamos: em 2007, 13 biliões de Coroas; em 2008, 10 biliões; em 2009, 8,5 biliões. E para 2010, uma nova redução, com uma verba prevista de 7 biliões de Coroas. Ou seja, em quatro anos o orçamento viu-se reduzido quase para metade. Enquanto isto, foram assignados para a construção do túnel Blanka 26 biliões de coroas, enterrados numa obra que quase ninguém compreende e cuja utilidade real parece existir apenas na mente de uns quantos governantes. Uma espécie de TGV de Praga, que contribuirá para a saturação do centro de Praga com trânsito automóvel. Enquanto por todo o lado se assiste à tomada de medidas que visam encorajar a utilização das redes de transportes públicos, em Praga parece que se caminha na direcção oposta.

Como que a culminar este estado de coisas, a DPP acaba de anunciar cortes dramáticos na rede: as composições do metro passarão mais espaçadas e começarão a circular meia hora mais tarde, acabando o trabalho meia hora mais cedo; o eléctrico 19 será extinto e muitas das outras carreiras passarão a circular apenas com um vagão; em termos de autocarros, os cortes serão mais dramáticos, com vinte carreiras totalmente eliminadas. No total está previsto um corte em 5% de toda a actividade, que entrará em vigência a 7 de Março. Os praguenses estão zangados… e eu também!

A Noiva

Cheguei a Praga numa manhã de Inverno. Para trás, mais um periodo natalício passado em Portugal, associado ao meu próprio aniversário e à festa de passagem de ano. Dia 11 de Janeiro saí do aeroporto de Faro. Parti com 17 graus, e umas horas depois estava a aterrar em Ruzyne, já com -5. Pelo meio, uma noite “bem passada” em Gatwick, entre as lajes frias e duras da sala de check-in e o conforto já luxuoso de uma fila de bancos ligeiramente alcochoados, na zona de lojas reservada aos passageiros.

Fui encontrar a minha segunda pátria vestida de branco, linda, como uma noiva. Caiu aqui o mesmo nevão, ampliado umas quantas vezes, que fez com que o caos se instalasse no tráfego aéreo inglês e que chegou a ameaçar a minha rica viagem. Mas para os checos, estas neves são coisas de brincadeira, resolvidas na hora com uma mão atrás das costas. Enquanto Heathrow, Gatwick, Luton e outros aeroportos geridos pelo “povo superior” se imobilizavam, Praga (e já agora, Moscovo) continuava pronta a acolher os aviões que por cá aparecessem.

Rezam as memórias dos mais velhos que o chamado “aquecimento global” tem feito mossa no Inverno checo. Dizem que as coisas já não são como eram. Que os Natais seguramente nevados passaram à História, que estas meia-dúzia de dias com queda de flocos são uma anedota. Dantes sim, era sair de casa e ficar literalmente enterrado  no manto branco. Pois seja como for, concordo que Praga não é actualmente uma cidade de neve. Ela cai, umas quantas vezes por ano, fica por ai uns dias, depois acaba por se esvair na sua própria água e o Inverno volta a ser apenas um sinónimo tristonho de dias cinzentos, árvores nuas, pessoas que cruzam as ruas com os agasalhos completos. O ano passado houve um dia de neve a sério. E como ela caia. Cobriu tudo e até parecia um filme. Mas isso foi dia que já lá vai. Desde então, nada de especial.

Até que cheguei e vi os restos, ainda frescos, do nevão. Já me disseram que foi o maior desde 1993, o que é coisa considerável. Foi há uma semana e os vestígios mantêm-se fortes. Mas quando fiz o percurso entre o aeroporto e casa, vinha de boca aberta. Ora isso foi há três dias. Então o cenário era outro: os carros que não tinha saído a tempo, ficaram enterrados, e conferiam um aspecto bizarro às ruas, como que montículos cobertos, espaçados, por vezes com vestígios discretos da verdadeira natureza daquela geologia: um limpa pára-brisas espetado, como que uma antena irrompendo das profundezas da terra ou um pedaço minúsculo da chapa, a dizer que afinal há ali alguma côr. Em circulação, outros automóveis transportavam emcima de si blocos impressionantes de neve, assemelhando-se a bagageiras de tejadilho, nalguns casos como quase meio metro de altura. Os eléctricos passavam a assobiar, provocando uma projecção de neve como a que se vê saindo dos esquis em alta velocidade. Ruas que normalmente são respeitáveis pedaços de asfalto dos bairros cosmopolitas tornaram-se subitamente num mar de lama gelada, parecendo caminhos de terra, com as caracteristicas marcas de rodado dos lados de um talude central. Equipas da polícia trabalham na remoção da infinita quantidade de gelo e neve, misturadas por todo o lado. Nos jardins, os bancos parecem ter ganho vida nova com o design revolucionário que lhes adicionou um segundo nível, branco, que se alinha rigorosamente sobre a superfície original, alta de várias dezenas de centímetros. Por onde as pessoas passam, o piso está relativamente limpo. Criaram-se trilhos obrigatórios, para além dos quais cada um está por sua conta. De repente, o movimento dos humanos está limitado a carris imaginários. Já não se pode atravessar uma rua onde der na gana; tem que se encontrar o trilho que poderá levar até ao outro lado, e segui-lo respeitosamente. Acabaram-se as corridas para não perder o autocarro ou o eléctrico: na maior parte das vezes não é de todo possível, e na melhor das hipóteses fazê-lo represente um risco quase certo de patinar no gelo e acabar com o rabo esparramado no chão duro. Caminhar junto aos prédios, não é decididamente uma boa ideia; todos os anos um número significativo de pessoas dá entrada nos hospitais de Praga, cabeças e outros ossos partidos pelos blocos de gelo que se desprendem da sustentação precária onde se encontravam, algures lá em cima, junto a um telhado ou sob uma janela. E é essa a razão das diversas fitas de polícia que se vão vendo pelas ruas, causando sempre a curiosidade dos transeuntes, que a custo vencem a força dos agasalhos para olhar para cima, tentando identificar o inimigo mortal que se esconde nas alturas.

E tudo isto irrita os checos. Que ficam com um humor ainda pior do que o costume, chegando a fasquias de azedume consideradas humanamente inalcancáveis. E é assim… se não neva é porque os invernos já não são o que eram, e não se calam que Natal sem neve não é nada, e que faz falta o branco paras as brincadeiras dos gaiatos e graúdos nos parques, enfim, é uma choradeira pegada. Ah mas se neva, então é tudo aquilo que já disse. Só problemas, problemas, problemas.

À laia de Diário

Tenho que reconhecer que quando iniciei este blog não gastei muito tempo a sistematizar, a definir estilo e conteúdos. À primeira vista poderia ser um diário, quase pessoal. Por acaso os textos não têm trilhado muito esses caminhos, mas hoje é o que vai acontecer. E então vamos lá a isto…

Pois estava eu muito bem descansadinho num serão que se parecia com um outro qualquer, no Domingo passado, quando começo a sentir uma dorzita na base de um dente. Nem foram precisos dez minutos, seiscentos míseros segundos, para que a dorzita que talvez não fosse nada se encorpasse e se transformasse numa evidente infecção. Na manhã seguinte a coisa era já ameaçadora. E é nestas alturas que sentimos o que é estar numa terra que não é a nossa. Onde ir, a quem pedir ajuda… racionalizar… preciso de alguém que fale inglês e que não me cobre os olhos da cara por uma coisita destas. Só preciso de uns antibióticos, pensava eu. Apenas para me aguentar mais duas semanas, e depois vou nas calmas à minha dentista habitual. Bem, pesquisa na Internet, dicas de amigos e acabo por telefonar para um consultório de uma dentista com aspecto simpático, website em inglês, bem organizado, com preços e tudo. Aqui, as coisas são um bocado diferentes do que se passa em Portugal. Os médicos fazem questão de comunicar com os pacientes e potenciais pacientes logo desde o primeiro momento. Já tinha achado estranho quando no ano passado em busca de uma consulta de especialidade, me tinham dado o número de telemóvel do médico e “agora fala com ele e entendam-se”. Desta vez foi quase a mesma coisa, mais especificamente “a minha médica já te telefona de volta”. Ora o de volta levou duas horas, mas quando chegou foi uma alegria. Sim, era possível marcar uma visita para o próprio dia, daí a duas horas e meia.

Agora, abre parêntisis. Tinha uma reunião com uma cliente, e estava-me aliás a dirigir para o café onde tinhamos combinado o encontro quando me telefona a dentista. Feitas as contas, equacionadas as hipóteses, decidi mesmo assim apresentar-me ao trabalho. Achei que tinha tempo. Dos negócios não contarei detalhes, mas após despachar o assunto do dia, ficámos um pouco à conversa, para minha grande sorte. Ali em quinze minutos, levei uma aula práctica de como iniciar um negócio na Chéchia. E como as condições são mais favoráveis do que em Portugal! É verdade que a burocracia checa é lendária… mas os termos gerais, meus senhores, que delícia. Vamos resumir. Para ser empresário em nome individual, aquilo que sou em Portugal, basta ir às Finanças, largar 1000 Czk (40 Eur) e está feito. Só que aqui pode-se trabalhar no que apetecer. Não há cá categorias. Posso ser informático, mestre pasteleiro e guia turístico, ao mesmo tempo. O Estado não quer saber. Desde que se pague os impostos. Depois, Segurança Social e SNS, são para baixo de 75 Eur por mês. IVA, só se paga se se chegar a 40.000 Eur por ano. É mesmo isto que eu quero. Adeus Estado Português, do meu não vais ver mais durante uns tempos.

Sai do Sudicka com um sorriso na boca e um olho no relógio. Tinha que estar do outro lado da cidade dentro de vinte minutos. Um percurso que de eléctrico levaria uns 30 minutos. Mas estava satisfeito, sentia-me uns mãos largas e decidi conceder-me um mimo: chamar um táxi. Uh oh! Big mistake! Não tinha noção do inferno que é o trânsito nesta cidade. Tomar nota mental: está reconfirmado que nunca quererei um carro na minha vida checa. Quarenta minutos e 16 Euros (!!!) depois, cheguei.

E aquilo foi só “boas” notícias. O dentinho que tinha perdido a “coroa” artificial do outro lado da boca, era para arrancar. E aquele que me doia… oh, isso era uma “big big infection”. Ora desde pequenino que aprendi que em dente infectado não se toca. Primeiro os comprimidos, e depois então vai-se ao castigo. Não aqui. Saca da parafernália, e lá vai disto, para meu horror, desprovido para preparação psicológica elaborada que sempre preciso para me sentar voluntariamente na cadeira da verduga. mas tenho que reconhecer: não foi assim tão mau. Ali no castigo com duas checas giraças, uma loura e outra morena, como cantava o saudoso Marco Paulo. Não foi mau até à hora da conta. Pois então lá vai disto, mais 80 Eur. Feitas as contas, a alegria da conversa de café estava quase a entrar em terreno negativo. Pus-me na alheta, e ainda fiquei a dever 100 Czk, que não levava tamanha fortuna na carteira. Fica para a próxima, que pelo menos duas visitas posteriores são necessárias para terminar com o dentinho infectado. Arrancar o outro nem quero pensar para já, deixa-o estar.

E quando cheguei a casa, a coisa estava negra. A doutora tinha toda a razão. “Big, big infection”. Dizia ela que para 4ª Feira me sentiria melhor. E eu não quis adiar a cura. Fui logo servir-me dos antibióticos à farmácia mais próxima (vá lá, alguma coisa em conta neste dia de despesismo – 7 Eur) e de papas de bébé para os dias complicados que se avizinhavam.

A partir daqui foi hibernar durante 3 dias. Dormir, antibiótico. Ler, dormir. Internet. Antibiótico. Dormir. E aqui estou eu, hoje. Depois do despertar dos dias negros. Levantei-me, arrumei o quarto, lavei a louça. Fui jantar fora, que bem merecia uma carninha. Depois, experimentar uma casa de chá que é uma categoria, mesmo aqui ao virar da esquina. Finalmente, foi chegar a casa de pança cheia, acender velas à farta, e colocar a musiquinha calma de Diana Krall, enquanto o aquecedor fazia o seu trabalho e elevava a temperatura para níveis muito, mas muito, agradáveis.

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Nova casa, nova vida

Pois é. Este vosso amigo tem andado tristonho, cabisbaixo. E porquê? Tem-lhe faltado um tecto a que pudesse chamar de seu. Mas isso agora acabou. É verdade que será difícil substituir o lar de três anos na Na Struze. Mas não se mudou para mal. Agora é para os lados de Letna, uma zona simpática, paredes meias com os parques de Stromovka e Letna, de onde se pode atingir a pé, com alguma boa vontade, o Castelo e a Praça da Cidade Antiga. Comércio não falta e, dizem os mais experientes, há para aqui restaurantezinhos simpáticos até dizer chega. A paragem de eléctrico fica a um minuto, e lá passam nada mais nada menos que duas carreiras nocturnas, um elemento chave nesta cidade. Do outro lado da rua um supermercado Bila, e mais abaixo uma loja de conveniência “non-stop”.

Agora vive-se a fase de descobrimento. Está na altura de explorar estas paragens. Ganhar rotinas. Marcar os sítios mais simpáticos, experimentar acessos. Entre as quatro paredes é necessário melhorar, construir o ninho, até porque o Inverno está ai a chegar. Por isso hoje foi dia de IKEA, na companhia da minha boa amiga checa Klara. Nada como o conselho feminino nestas coisas, e ainda usufruir de uma ajudinha para ultrapassar barreiras linguisticas.

E embora não interessando aqui para nada tenho que desabafar: hoje era para ter ido para Oslo, durante cinco dias. Mas ainda aqui estou. Graças à porcaria de tempo que se pôs na Noruega. A previsão é de chuva e mais chuva, entrecortada com neve para animar, e um frio de rachar. Não obrigado. Perderam-se os 25 Eur dos bilhetes mas controlaram-se as perdas. Se tivesse ido vinha uns 100 Eur mais pobre e provavelmente nada bem tratado pelos Elementos. Fica para a próxima.

O entra e sai

Quando o Homem se movimenta, os seus procura. É assim em Praga, e em qualquer local onde exista uma comunidade internacional numerosa. Mas a ideia de muitos, quando deixam os seus países de origem para trás, não é procurarem compatriotas para sustentar a nova rede social que se adivinha. “Para isso ficava lá”, é o pensamento por vezes verbalizado. Então o que se passa a seguir? Acaba-se por se procurar um lugar no círculo de outros párias, cidadãos do mundo, que escolheram Praga para passar estes dias, meses ou anos das suas vidas.

A experiência ganha assim um reforço de monta. Já não é só viver uma nova sociedade, sentir um povo diferente, uma cultura distinta. Com as devidas proporções, o contacto com a entidade Checa é complementado com um mosaico de nacionalidades. As informações chovem, a aprendizagem é permanente. A cada serão em redor de umas cervejas vai-se absorvendo todas estas vivências. E dou por mim rodeado por gentes de paragens distantes: russos, ucranianos, suecos, franceses, indianos, tadjiques, azerbeijanis, gregos, norte-americanos… e a lista continua, demasiado extensa para uma apresentação exaustiva.

Mas a riqueza de tal círculo social tem um preço: a sua fragilidade. Porque uns chegam, e outros partem. Em poucos meses as faces em redor da mesa mudam, e muito. E quando chega a hora dos nossos amigos mais chegados, mexe conosco. Uns, voltam a ser encontrados. Ou porque regressam, ou porque nos visitam. Ou talvez porque esbarramos em qualquer outra paragem do mundo. Outros serão uma imagem crescentemente difusa da nossa memória.

Hoje foi um destes dias, em que se diz “adeus”, ou mais provavelmente “até breve”. Derek é um “old timer” destas andanças de Praga e partiu para o seu Canadá. O plano diz que será por uns quantos meses apenas, até depois do Inverno, mas nestas coisas nunca se sabe. Como manda a tradição, houve “meeting”, e foi dos bons. O local foi o U Sadu. Isto apenas para que conste nos registos. O que interessa é que o Derek, companheiro de tantas farras e aventuras se foi.

Grotesco e Mau Tempo

Os dias de Outono em Praga são tudo menos de Outono. Não há memória entre os meus contactos locais de um Outubro assim. Vejam só que até tem nevado! Em Outubro! Coisa que não costuma suceder antes dos últmos dias de Novembro! E vai dai, nada de passeadas urbanas de fim de tarde, nada de explorações no meio rural checo. Com o tempo assim, é ficar em casa, bem abrigado. É que se juntou o frio à chuva… mas pior que isso, o vento veio ajudar à festa. É que se as baixas temperaturas, mesmo a rondar os zero graus, não amedrontam ninguém por aqui (até porque zero graus em Praga se sentem como 8 graus em Portugal), já a chuva molha mesmo… e irrita, chateia. Quando a tudo isto se junta vento, aquele acelerador térmico infernal, então está o caldo entornado: o frio torna-se glaciar, e a chuva espalha-se pelo ar, passa a haver água em todo o lado.

Mas mesmo com este cenário, tive que sair por um bocado. Acho que ninguém consegue ficar em casa um dia inteiro sem começar a sentir-se atrofiado, e não serei excepção. Já estava em Praga há uma semana e ainda nem tinha visto o rio, visitado a minha antiga zona, a mais bonita da cidade (Ok, vá lá, uma das mais bonitas…). E então enchi-me de coragem e fui para a rua. Aquilo que via pela janela atingiu-me em cheio na cara. Não estava preparado. Era pior do que calculava. Mas lá fui… e dei por mim a atravessar a ponte Karlovo. O cenário ali era… grotesco – daí o nome desta entrada no blog.

Mas vocês conseguem imaginar, conceptualizar, visualizar… uma ponte mais antiga que os antigos, um monumento histórico, património da humanidade, a sofrer obras de manutenção estruturais, com andaimes e o diabo a quatro… e como se não bastasse, com a intempérie implacável a cobri-la num turbilhão de vento e chuva… e por cima de tudo isto… uma multidão a perder de vista de turistas. Em grupo e a título individual, numa massa compacta, caminhando com faces baixas, olhos postos no chão. E estava eu nisto, a reflectir sobre o patético da situação, quando passa por mim um extenso grupo de russos. E a guia do rebanho levava ao pescoço um par de colunas de som, que debitavam em altos decibeis o que ela ia tentando dizer por um microfome pendurado perto da boca. Os seus cordeiros, claro, nem fingiam prestar atenção. Porque russos são gente muito habituada ao mau tempo, mas também ao aquecimento central, e quando levam com este frio, este temporal, como pessoas que são, estão pouco preocupadas com explicações de cicerone.

Russos deixados para trás, passam os japoneses. Não sei se melhor se pior: um em cada quatro ou cinco leva a cara coberta por uma máscara tipo de cirurgião. Deve ser a gripe A que lhes mete medo. Esta gente de palmo e meia acha-se capaz de desafiar o Criador com uma máscara de cirurgião, e por ali anda, de certa forma indiferente ao temporal… mas muito preocupados com a gripe A, que na República Checa não fez ainda uma vítima que seja.

Depois disto ainda fui aonde me prestava dirigir quando comecei a atravessar a ponte: à livraria que vende livros em inglês. Mas não encontrei nada que me cativasse, e voltei para casa tão depressa como pude. Desta vez a salvo do grotesco, por outros caminhos.

O Outono dá-se ares de Inverno, nesta Praga que tão bem se dá com a estação das folhas douradas. O dia acordou cinzentão, houve chuva. Tal como ontem. E, a acreditar na previsão metereológica, a coisa vai-se manter. O que é sempre uma espécie de futurologia, e se o digo, não é pelo vão prazer de cortar na casaca dos mestres do tempo, mas porque aqui, na Europa Central, as coisas são mesmo assim: não dá para fazer previsões.

O dia foi uma espécie de rescaldo, uma cura da “overdose” social do fim-de-semana que começou cedo, logo na 6ª. Duas festas, duas longas noites e dois jantares depois, foi dia de sossego, passado pachorrentamente no Café Meduza, de volta de trabalho. Já para o final da tarde recebi a visita do meu amigo Pavel, que me fez companhia a devorar as pizzas do Kmotra. Depois, para acabar o dia, demos um salto ao Globe, onde visionámos o filme Oldboy.

Outra vez, de volta

Depois de mais um Verão em Portugal, como mandam os costumes e as necessidades prácticas, aqui estou de novo. Fazendo as contas, é a oitava vez que aterro no aeroporto de Praga. Mentiria se disesse que em todas as ocasiões anteriores a história se repetiu. Não, foi quase sempre diferente, mas agora, por fim, a rotina está-se a instalar. Isso na chegada, porque em Praga as coisas vão mudando. Desde quando é que o revisor de bilhetes entra no autocarro e dispensa os turistas de fiscalização?? Não! Algo está errado. A tradição manda que seja ao contrário: os estrangeiros são o saco de pancada dos revisores, sempre foram… o que se passa aqui? E como é que se pode compreender que o “picas” seja sorridente e espalhe “Ok’s” pelo espaço de acção? Decididamente, Praga muda. Já não bastavam os polícias que começam a falar inglês, os condutores que se vão apercebendo do conceito de “passadeiras”. Agora até os revisores são simpáticos.

Estou a ficar com amigos. O antigo apartamento, lar de tantas aventuras, tantos sentimentos, tanta vivência foi-se. Adeus Na Struze. A memória perdurará, sempre. E com isto, ainda não visitei a Praga dos sonhos, o centro, o icone turístico, a cidade de encantar. Nas idas e vindas, entre as conversas que urge pôr em dia e obrigações diversas, não vi tão pouco o rio Vltava, a imagem de marca de Praga. E já se passaram três dias. O primeiro, foi para recuperar… e para comparecer numa festa com muita cerveja… o segundo, para trabalhar…. o terceiro, para ir a Krivoklat (já vamos aos esclarecimentos) e para, imaginem só, comparecer a uma festa com muita cerveja.

E pois, Krivoklat. O meu percurso de hiking favorito, tão equilibrado, tão diverso, tão belo. Começando na castiça aldeia de Zbecno, e depois caminhando lado a lado com o rio Berounka, passando junto às pictorescas “chatas” (casas de campo checas, para usufruto de fins-de-semana e férias), entrando pela montanha adentro, rodeado de bosques de altas árvores, até chegar lá acima, de onde a vista sobre o vale impera. Por fim, chegando ao castelo de Krivoklat, e regressando no comboio campestre, de duas carruagens apenas, a fazer lembrar as travessias dos Alpes. Tive que lá ir hoje, porque amanhã terei que por lá passar. Hoje em exploração, amanhã em trabalho. Os caminhos-de-ferro encerraram um troço essencial para alcançar Krivoklat, e como amanhã tenho clientes a irem lá comigo, tive que me largar a encontrar alternativas de transportes. Correu tudo bem. Depois das primeiras horas em Praga a serem algo frustrantes, hoje o dia foi em cheio. Deu para lavar os pulmões e a alma.

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