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É isso mesmo! Praga é muito bonita mas o aeroporto, para esquecer. Brno é que está a dar. Para começar, com o dedo da Santa Ryanair, permitiu-me ir de Faro até Praga e regressar por 47 Eur, o que para mim é um recorde absoluto nas ligações entre Portugal e a República Checa. Como? Faro – Stansted, Stansted – Brno, autocarro para o centro da cidade, andar dois passos, autocarro Student Agency para Praga. E mais ou menos a mesma coisa no trajecto de retorno.

A coisa mais “cool” do aeroporto de Brno é o seu tamanho, tipo casa de bonecas. Quando se chega, de avião, nem é tão evidente, mas na aproximação de autocarro, a partir da baixa da cidade, já é outra coisa. Parece um pavilhão, ou um armazém. Isto nas dimensões! Porque fora isso é um brilho! Funcional, com um ambiente familiar, preços de cafetaria que não têm nada a ver com o comum dos aeroportos (uma lata de Pesi custa 0,80 Eur numa máquina automática de venda). Há 6 balcões de check-in, 2 passadeiras para controle das bagagens e dois guichets para verificação de passaportes. Já estão a ver melhor o que quero dizer com “ambiente familiar”? Mas não é só isso: no aeroporto de Brno distribuem-se sorrisos. O pessoal é mesmo simpático e… está-se bem.

Entre a entrada no terminal e as portas de embarque vão não mais do que 50 metros, pois isso não há que preocupar com os “hikings” de Barajas ou Gatwick. Não são precisos 20 minutos para se andar até ao ponto de embarque mas sim 20 segundos.

A cereja em cima do bolo é a Internet de borla, e, pasme-se, até é possível encontrar umas fichazinhas para colocar o computador à carga equanto se escrevem umas coisitas para o blog.

Eu cá estou conquistado! Aeroporto de Brno forever! O que me faz lembrar que já tinha usado esta expressão algures para me referir aos morávios. O que faz todo o sentido porque Brno, segunda cidade da Rep. Checa, é a capital da morávia.

Passagem Efémera

Regressar, oito meses depois. Sem saber o que esperar, ultrapassando o portal que me leva de regresso ao passado. Estar ciente de que estão reunidos todos os factores para uma pequena tempestade emocional, como sucede quando voltamos atrás uma página do livro da vida que já lemos.

Surpreendentemente, contra todas as probabilidades, não foi nada disso que sucedeu. Bem pelo contrário. Fui antes mergulhado num remoinho de reencontros, de ocasiões sociais, de visitas a solo aos locais que antes eram o meu dia a dia. O frio das temperaturas negativas gelou-me a pele mas aqueceu-me as entranhas. Sentia falta disto, De estar em casa aconchegado pela temperatura amenas que só aquecimento conveniente e isolamentos adequados podem proporcional, sair para a rua e receber aquela carícia áspera do ar que corta mas não penetra. E a neve, esquecida em alguns pontos, depois de vários dias sem renovação.

Revi amigos e conhecidos, estabeleci novos contactos. Lutei como não sabia ser possível lutar contra uma agenda que se preencheu, deixando poucos espaços para convites endereçados. Para estar sozinho, comigo e com o meu amor, sobraram poucas ocasiões, mas aconteceu: um longo passeio ao lusco-fusco, que em Praga parece durar para sempre, com os toques dourados de um sol que se reflectia onde podia e, para potenciar o prazer, sem uma horda de turistas, que certamente se acobardaram perante os menos sete graus daquele final de tarde.

Com esta viagem aprendi algo, que me tinha passado despercebido desde que decidi deixar de viver em Praga: voltarei, e depois de voltar regressarei, e depois de regressar retornarei. Como visitante e como habitante. Não há como resistir ao charme desta velha senhora. É amor para a vida.

A Tasquinha

Um final de tarde que se estende, um serão… na companhia de um copito de tinto. E mais um. E outro. E ainda outro. Do lado oposto da mesa, aliás, ao meu lado, a Jana. Que do outro lado já estava ocupado. Uma senhora de ar digno mas bem humorado teve a gentileza de nos convidar para a sua mesa, que todas as outras já estavam tomadas. Não será de estranhar. A tasquinha da esquina tem apenas 3 ou 4 pequenas bancas. Pelas sete e meia era suficientes para albergar o público. Pelas oito e meia o pequeno espaço já tinha cinco ou seis almas de pé, copo na mão, conversa animada. É a tasquinha do bairro. Ponto de encontro de vizinhos de outros tempos, gente bem metida pelos seus sessenta anos, que quiçá terão inaugurado a paróquia de Vrsovice, há muitos, muitos anos atrás. Sentem-se as cumplicidades de décadas de resistência. Mas o que é verdadeiramente espantoso é a ausência da mítica hostilidade checa. Aquela gente, definitivamente, é especial. Serão os ares de Vrsovice dotados de miraculosos atributos gasosos que colocam um sorriso na boca de quem os respira?

Por detrás do balcão, uma mulher que noutros tempos foi linda de morrer, coloca o queixo sobre o balcão, ainda com toques de musa fatal, enquanto nos pergunta o que desejamos beber. Derrete-se na conversa rápida com a Jana, olhos dengosos, gesto rápido, aparente prazer no que faz. Muito saberá sobre todos aqueles que por ali páram, dia após dia. É a versão bem checa do “barman”, amigo de todas as horas, sempre presente.

Uma hora e meia muito bem passada. No final, deixar 54 Coroas (2,50 Euros) por seis copos de vinho. E mais uns trocos, que a beldade decadente nos presenteou com uns palitos salgados para entreter o dente, sem nada pedir em troca. Onde estão estes espaços em Portugal, terra de vinho, que deixa cair os seus créditos em tudo para os “adversários” mais insuspeitos, como esta República Checa, cheia de tasquinhas e casas de vinho, em terra de cerveja e despida de vinha?

Devin

Na margem ocidental do Vltava, uns três quilómetros distante do centro da cidade, ergue-se uma barreira rochosa de algumas dezenas de metros de altura, aliás, devidamente secundada por uma formação idêntica no banco oposto. Para lá chegar, é tomar caminhos por portas travessas, estradas e trilhos esses que felizmente já conheço de outras andanças. Hoje o dia está ideal para estas coisas. O céu azul impera, e a temperatura, a princípio agreste, torna-se ideal quando o corpo se põe em movimento.

O último truque antes de iniciar a ascensão final, vereda inclinada, monte acima, é a transposição de uma linha de comboio que já viu dias melhores. Ali ao lado, o apeadeiro decadente inspira algumas fotografias, que hoje ficaram adiadas, câmara em casa. As vistas lá de cima impressionam sempre, mesmo quando uma pessoa já se habituou ao que a espera no topo. É aquele ruido surdo que sobe da grande cidade e chega como um rumor aos altos. Em baixo vê-se o lobrigar de carros, atravessando o rio em diversas pontes, circulando pelas vias rápidas. No horizonte, alguns dos edíficios mais avantajados de Praga podem ser identificados, silhuetas erectas, orgulhosas, penetrando os céus. E Podoli, esse singelo bairro, tão-mal amado, de que tanto gosto, mesmo ali aos pés, encimado pela patriótica Vysehrad.

Noutros tempos erguia-se ali um castelo, do qual nada resta. A percepção do que foi e já não é, ganhamo-la pela observação dos paineis informativos que por ali mostram uma planta levantada pelos estudiosos. E de facto faz sentido. Depois de o sabermos quase que o vemos, o velho castro, sobranceiro ao rio, imperioso.

Mas o usufruto de tal momento de tranquilidade não se poderia estender por toda a tarde. Havia algum caminho a trilhar, no sentido oposto ao rio. Primeiro, atravessando um bizarro campo agrícola, enorme, vasto, amplo, que ali permanece, acarinhado pelo agricultor que o explora, no seio da cidade, de braço dado com uma ruralidade que existe em Praga como em nenhuma outra capital europeia. Depois de atravessar um bem mantido parque, devidamente artilhado com paineís informativos, caminhos bem mantidos e bancos de jardim, foi chegar à zona dos grandes penhascos. Toda a área é cortada por discretos trilhos, que conduzem, por vezes mato adentro, de ponto em ponto, numa rede sem fim. Subi a um par deles, de acesso dificil, gozando de uma sensação de exclusividade, lá em cima, observando as imediações do alto de penedos que não conhecem visitantes todos os dias.

Mais à frente, numa destas ascensões, descubro uma lagoa de águas verdes, escondida, secreta, entre estas formações rochosas. Junto à margem um grupo de pessoas descansa depois de uma braçadas nesta piscina natural quase privada. Está quase na hora de tomar o caminho de regresso. O sol vai caindo, e há trabalho que me espera em casa. No regresso cruzo velhas aldeias que são hoje parte de Praga. Uma realidade desfazada, forçada pela administração. São locais que parecem pertencer a um país profundo, com a configuração tradicional da aldeia de campo, edíficios pobres e por vezes muito degradados e uma praça central onde a comunidade se vai reunindo assim que a invernia recua.

A fome aperta e depois de encontrar um amigo que me devolve uma lente fotográfica que lhe foi emprestada, vou a uma pizza num dos meus ícones gastronómicos em Praga: a Kmotra, pizzaria descoberta no plano teórico mesmo antes de assentar os pés pela primeira vez na cidade, descoberta aquando da primeira vinda, e visitada com frequência. Delicio-me com aquela pizza mascarpone, vendida por rídiculos 6 Eur, enorme, coberta a preceito com todos os ingredientes que lhe trazem a fama. E de volta a casa, depois de uma tarde passada em excelência.

One World

Nestes últimos dias, vá, nesta última semana, tenho andado atarefado. É época de Festival One World, sempre por esta altura do ano, sempre oito dias a abrir de cinema documental. A coisa já dura há uma série de anos, e a cada edição as audiências atingem números record. Desta feita a mostra de filmes, geralmente dedicados a temas sociais e de direitos humanos, decorreu em nove salas, e exibiu 101 películas, escolhidas de um lote de 1600 trabalhos analisados no decorrer dos trabalhos de selecção.

Logo no segundo dia fui ao centro do festival, instalado no Café Lucerna, adquirir o meu cartão de acreditação. Com este passe, pode o espectador assistir a até 3 filmes por dia (4 durante o fim-de-semana) em quatro das salas, o que é perfeitamente suficiente, considerando o sistema de rotação de filmes e o número diário de escolhas. E por isto, paga-se a quantia de 13 Eur, que, considerando o valor individual dos bilhetes – cerca de 2,60 Eur, fica pago muito rapidamente.

Depois é a loucura. Dia após dia, solicitar os ingressos gratuitos, assistir aos filmes… passar de um cinema para o outro, uma e outra vez. Disfrutar na escuridão da sala dos trabalhos magníficos que vão sendo apresentados. E olhar em redor e ver com prazer o sucesso que esta bela iniciativa tem. Por todo o lado se vê gente atarefada, a entrar, a sair, na fila da bilheteira, dentro das salas, nos cafés envolventes. É um frenesim que dura uma semana, e que assim que se termina, deixa desde logo a vontade para que chegue Março de novo, para se ver o que a edição seguinte trará.

Dada a natureza do tema base do festival, o programa reflecte a realidade que nos rodeia a cada edição, por vezes com um ou dois anos de desconto. Em 2010 viu-se muita coisa sobre a situação no Irão, no Afeganistão, na Rússia. Mas também filmes interessantes sobre o Zimbabwe, sobre o Quénia, sobre a Coreia do Norte. E sobre tantos outros locais, cada qual com os seus problemas, os seus dramas. A abrir a minha participação, vi God Bless Iceland, um documentário sobre o impacto da falência do Estado islandês na população. Um testemunho impressionante, com perspectivas muito frescas a deixar desde logo uma nota positiva e a abrir o apetite para o manjar que se seguiria.

Muitas das salas de cinema onde decorre o Festival são por si um espectáculo. O cinema Lucerna, em cujo majestoso café se encontra instalado o quartel-general da organização é uma das incontáveis maravilhas de Praga: um cinema clássico, aberto em 1909, mantém-se até hoje num brio à prova de qualquer crítica, como pode ver aqui. Já a sala da Biblioteca Municipal de Praga se torna original, com o seu estilo austero, cadeiras de madeira, dotadas de uma pequena mesa para apontamentos ou o que quer que o espectador deseje.

O website do Festival, é por si um símbolo da qualidade presente. As funcionalidades, a capacidade comunicacional, a clareza e disponibilidade de informação, tudo isto se encontra ao nível mais elevado, cumprindo em pleno a missão que se espera de um espaço desta natureza. Para uma ideia mais detalhada dos filmes exibidos, convido o leitor a visitar então o website em questão.

Ontem foi dia de expedição a Milovice, esse navio fantasma que sulca as águas do território checo. Estava-se no início do século XX quando o poder austro-húngaro, que então mandava nestas partes da Europa, decidiu converter a área da aldeia de Milovice em zona militar. Ali se construiu um aeródromo que viu evoluir os primeiros aviões de combate, essas incipientes máquinas voadoras de estabilidade duvidosa, e unidades do exército foram instaladas nas imediações. Terminada a Primeira Guerra Mundial e fundada a primeira república da Checoslováquia, o Governo estabelecido achou por bem manter a natureza militar do sector. Em 1938, a História repete-se: os alemães tomam a Checoslováquia sem disparar um tiro e adoptam Milovice como complexo militar. Ali se treinaram, vá-se lá saber porquê, os homens que com Rommel haveriam de partir em conquista do Norte de África; máquinas de guerra inovadores são testadas, e é dada instrução ao pessoal dos tanques. No aérodromo instalam-se unidades de combate, incluindo esquadrilhas equipadas com os primeiros caças a jacto, o ME-262. Findo o segundo conflicto mundial, as coisas voltam à mesma, com as Forças Armadas Checoslovacas a assumirem o controle das instalações.

Mas foi com a chegada de 1968 e com a invasão dos países do Pacto de Varsóvia (honrosa excepção feita à Roménia, que não participou na infame movimentação) que Milovice entrou na sua fase mais pródiga: ali estabeleceram os soviéticos o quartel-general das suas forças na Europa Central, instalando por lá várias divisões de combate com especial destaque para as unidades de tanques. Na base aérea ficaram estacionadas esquadrilhas de caça, que em 1991 operavam Mig-29. As dimensões do complexo militar de Milovice dilataram-se ao ponto de hospedarem cerca de 120.000 pessoas, entre militares e seus familiares.

Com o colapso da União Soviética, os russos partiram. Deixaram Milovice, que se despediu assim de quase um século de simbiose com a máquina militar de quatro países diferentes. Para trás ficou uma aldeia, dividida entre a tristeza de uma amputação súbita, quando de um dia para o outro viu as gentes que por ali paravam reduzidas de 120.000 pessoas para apenas 6.000, e a alegria de uma libertação do invasor oficioso. Desde então Milovice cresceu um pouco, absorvendo áreas que anteriormente estavam acessíveis aos civis apenas com um cobiçado passe emitido pelas autoridades militares soviéticas. Formou-se a Mlada Milovice, que é como quem diz, a Nova Milovice, à custa de velhos edíficios, recuperados para utilização da população checa. Pelo meio encontram-se velhos trastes, encalhados neste desenvolvimento que procura atingir a modernidade. Uma escola abandonada, com as salas de aula e todos os espaços de suporte, que ainda hoje lá está, tal como os russos a deixaram. Um velho armazém que nos anos 80 representava o objecto de todos os desejos, vendendo ao desbarato bens que a população de Praga apenas poderia sonhar em obter.

Mas se uma boa parte do sector utilizado pelo exército tem estado a ser aproveitado pelos checos, a base aérea jaz ali ao lado, quase parada no tempo, não fosse o fruto do vandalismo que foi deixando sinais. Entrar na área é fácil, e dai até ao abuso sistemático foi um passo. Nos corredores de acesso à pista principal, carros enlouquecidos lançam-se em correrias, fazem “slalons” entre pneus, sempre a guinchar; aqui e acolá é preciso ter cuidado com os jogadores de paintball que disparam primeiro e fazem as perguntas depois. De tempos a tempos – apesar de cada vez menos – enormes festas “tecno” são ali organizadas, invariavelmente terminando em orgias de alcóol e drogas.

Contudo, para nós, meros curiosos ocidentais, Milovice tem outro significado: representa uma última oportunidade de visitar estes testemunhos de outros tempos, quando a guerra se chamava fria. Existem mais representantes deste mundo ido, mas como uma geração de velhos combatentes, vão morrendo um a um, tornando-se menos numeroso a cada ano que passa. Por enquanto é ainda possível obter um relance desse império soviético que se auto-extinguiu.

Já não é fácil ver-se iconologia referente a Lenine por essa Europa que antes se encontrava a Leste do Muro de Berlim, mas em Milovice ainda é possível. Na fachada de um enorme armazém lê-se em checo: “União Soviética para sempre”. Não se pode dizer que o autor da inscrição fosse um visionário, mas desperta sempre curiosidade observar os testemunhos mudos, enterrados nestes espaços esquecidos, desse mundo ido.

Percorrer aquelas ruas e caminhos é uma experiência única. A maior parte dos edíficios teriam funções que se perderam com o tempo. A funcionalidade de outros mantém-se ainda hoje óbvia. A torre de controlo abandonada, vigilante, sobre a pista, é um dos muitos pontos a visitar. Os muitos hangares, semi-enterrados para protecção das aeronaves que abrigavam, estão fechados, mas a sua silhueta impressiona. Imagina-se com facilidade as movimentações daqueles potentes aviões de guerra, num vai-vem, exercício após exercício, em perpétua preparação para a guerra que nunca chegou.  Mais à frente, junto à área residencial, um ginásio que já há-de ter visto muitos momentos de glória tem o seu piso de tacos quase destruido, apesar de se verem ainda as marcações para a práctica do basquetebol. O próximo edíficio era o centro cultural, com uma sala de cinema na qual existem apenas os socalcos onde outrora se encontravam as filas de cadeiras. Do outro lado da rua iniciam-se os blocos residenciais, espalhados por várias ruas. São os fantasmas de betão mais impressionantes desta selva cinzenta, talvez porque a presença humana ali se torna mais gritante. Os pequenos apartamentos que davam abrigo às familias dos militares despertam memórias nos meus amigos russos: “É tal e qual como quando eu era pequeno!” ou “Impressionante como o modelo arquitectónico em voga nesses anos 80 era omnipresente”.

E assim se fez mais uma visita a Milovice. Ontem, com um grupo de amigos, mas habitualmente efectuadas em modo comercial (sim, tour privada com guia português). O tempo foi bastardo pela manhã, com muita neve e um vento gélido que soprava sobretudo na pista de aterragem. O interior dos edíficios encontrava-se dominada por uma inclemente rede de correntes de ar que anulava a sensação de abrigo que se poderia sentir entre quatro paredes. Mas para a tarde a coisa amainou, e ficou mesmo agradável. A terminar o dia, já com o cansaço natural trazido pelas aventuras vividas, o grupo recolheu-se a um pub local na aldeia de Milovice, e foi com entusiasmo que partilhámos à mesa umas doses de queijo frito e as canecas de excelente cerveja checa.

Snooker

Talvez seja impressão, talvez seja parte de um fluir em eterno retorno, que marca gerações após gerações com um estigma de falsa diferença. Mas a verdade é que me dá a ideia que os gloriosos salões de snooker de Lisboa (e portanto, de outras cidades de Portugal) se tornaram com o tempo obsoletos, cairam em desgraça, em situações de inviabilidade financeira, e acabaram por conhecer destinos díspares. Não sei se ainda há resistentes, ou se uma tarde de Inverno bem passada inclui ainda umas tacadas sem fim lá para as Avenidas Novas. Recordo-me dos finais de dia de Junho, o dia de praia a terminar, o buraco enorme deixado pelo cessar do ano lectivo, e uma passagem quase a correr pelas mesas de snooker de um qualquer salão. Mas isto são memórias com uma ligação, já se verá.

Ora hoje, depois de quatro dias de cama com a primeira gripe da época, aventurei-me até ao lado de lá da rua para um hamburguer a sério, do Fraktal, regado com a incontornável cerveja. Cansaço, alguma febre. Terminada a refeição, paguei, e caminhava para casa antevendo já um serão preguiçoso, a seguir os pontapés na bola dos grandes Inter de Milão e Chelsea. Não podia estar mais enganado. Ao virar da esquina dou com um bando de amigos que se encaminhavam para um encontro de snooker, numa sala de bilhares mesmo ali ao lado, apenas a quatro portas do restaurante que tinha acabado de deixar. Ora agitação social era coisa que estava longe dos meus planos, mas não reuni coragem para desafiar o destino que me tinha colocado naquela esquina naquele preciso momento. E lá fomos, por assim dizer, de forma quase literal, “cantando e rindo”.

E ali estava ele, um verdadeiro salão clássico. Já o meu companheiro de apartamento, rapaz de Praga, nado e criado no bairro do lado, me tinha referido as suas tardes de jogatana entre aquelas paredes. Há coisas que não mudam. Podem alterar-se os nomes e os locais, as temperaturas e as bebidas, mas as memórias destes ambientes afinal são as mesmas. Lisboa e Praga são separadas por pouco mais de 3.000 km, mas, já se vê, unidas, quanto mais não seja, por este passado comum, esta cumplicidade adquirida de giz azul esfregado em taco de bilhar e olho maroto nas garotas.

Na antesala parámos por uns minutos para encomendar as primeiras cervejas e esperar pelo agrupamento das tropas. Na enorme TV sobranceira ao balcão os eslovacos batiam os noruegueses em hóquei no gelo, em desafio a contar para os Jogos Olímpicos de Inverno, disputados em Vancouver, que os checos seguem com o mesmo espírito religioso com que em Portugal se acompanham os Europeus e Mundiais onde a Selecção continuadamente faz furor.

E depois foi jogar. Duas mesas para o grupo. Ambiente adorável. Sala espaçosa, nem às moscas nem atafulhada. Junto à parede lateral, mais extensa, uma série de mesas com uma romântica luz amarela emprestava um toque de café clássico aquele salão de bilhares. Entre elas, separadores de madeira, à laia de biombos. E moças, das bem giras, em dois pequenos grupos, que trocavam impressões a meia voz. E nisto a imaginação descola e vou logo fantasiando sobre os encantos e desencantos que aquele espaço testemunhou já. Paixões concretizadas e sonhos destruidas. Emoções, muitas emoções. E a enorme História, de H bem maiúscula que ali se foi passando ao longo de décadas e décadas de vida em Praga.

Para o fim, a febre apertava, uma enorme vontade de fechar os olhões que absorveram todos aqueles recantos com sofreguidão, que avistaram mesmo os tais fantasmas de um passado sem registo formal. Afinal, ainda fui a tempo de ver os últimos minutos de um insipiente Inter 2 Chelsea 1. Não sem antes se pagar a despesa sob a batuta implacável do mestre de contas do local, checo ao pior nível, cheio de fel e antipatia… talvez com um velho coração destroçado pela menina dos seus olhos, talvez uma Jana, ou quiçá uma Šarka, muitos muitos anos atrás…  junto a uma daquelas mesas.

Pipocas Free

As luzes apagam-se, calmamente, como manda a tradição. E o silêncio cai sobre a sala. Uma calmaria selectiva, que deixa de fora todo o ruido que a audiência pudesse provocar. Porque o filme, esse vai-se desenrolando em todo o seu esplendor sonoro. É assim vir ao cinema. E para quem me leia a partir de Portugal, habituado que estará às risadinhas, ao estalar dos pacotes de pipocas, à miriade de sons inconvenientes provocados pelos telemóveis, poderá parecer uma viagem no tempo, ao antigamente, quando também nas salas do Porto e de Lisboa se podia assistir a um filme com toda a concentração que a obra merecia. Mas não é. Basta dar um salto a Praga, e essa realidade extinta regressará, como que saida de um livro de memórias há muito fechado, lombada poeirenta, que se sopra antes de se abrir para uma leitura que desperta aquele sorriso no canto dos lábios.

Em Lisboa, cidade com cerca de três milhões de habitantes, existia o Quarteto. Hoje, nada. Praga, metade dos habitantes. E só assim de memória, aponto o Aero, o Oko e o Svetozor. Cinemas dedicados ao cinema alternativo, sede de infindáveis ciclos temáticos, de festivais diversos. Websites modernos, actualizados, com reservas online. Preços atractivos, legendas em inglês. E acima de tudo, aquele ambiente. Silêncio, respeito. É de novo possível ir ao cinema, assistir ao esplendor da Sétima Arte na grande tela, para a qual nasceu.

E à laia de parêntisis, uma boa parte dos filmes em cartaz é de origem local. Produzidos num país mais pobre do que Portugal e com sensivelmente a mesma população. Mas que encontra artes e engenho para colocar todos os anos nos cinemas um incessante desfile de películas, cobrindo todos os géneros.

Zittau parece ter parado no tempo. A guerra passou-lhe ao lado, mas o mesmo não se pode dizer dos anos. A artilharia russa pode ter poupado esta pequena cidade da Alemanha Oriental, mas o modelo político que os eslavos transportavam consigo na bagagem causou danos, de outra forma, a prazo. Depois de quarenta e cinco anos de estagnação e imobilismo económico, duas décadas de injecção de capital proveniente da metade ocidental do país não foram suficientes nem sequer para lavar a cara de Zittau. Ao lado de umas quantas lojas modernas, alinham-se os velhos edíficios que se mantêm de pé a custo, marcados pelas cicatrizes acumuladas ano após ano, desde pelo menos meados do século XIX. Em algumas, existe ainda vida, mas a maior parte parece ter sido abandonada ao seu destino. Contam-se histórias de gentes que assim que teve oportunidade partiu em direcção ao ocidente e nunca mais voltou; ou de idosos que faleceram, e os herdeiros nomeados, vivendo algures em Frankfurt ou em Koln, nem sequer ponderaram apresentar-se para assumir a propriedade passada. E com isto Zittau perdeu habitantes. Antes da queda do Muro de Berlim eram mais de 60.000. Hoje, os habitantes desta pequena cidade estão reduzidos a uns meros 20.000.

Aqueles que se procuram estabelecer aqui provenientes da antiga Alemanha Ocidental são olhados com alguma desconfiança e têm que superar dificuldades acrescidas: um canalizador, um pintor, um electricista, apresenta-lhes com toda a naturalidade deste mundo orçamentos que podem ir até mais 300% do que pediriam a um natural da terra. A imagem de um Ocidente Dourado ainda não se desvaneceu, apesar da reacção massiva de desilusão, trazida por um sentimento de frustração que nos tempos que correm provoca em muito boa gente um sentimento de nostalgia relativamente à vida dura mas segura dos tempos de Honecker.

Zittau é de resto um ícone dessa outra Alemanha, uma filha de Erich Honecker e, por assim dizer, neta de Vladimir Ilitch Lenin. É nisso que reside o seu encanto para nós, meros ocidentais, estranhos a décadas de sofrimento daquele povo, à opressão, à subversão de toda uma gama de valores tidos como banais e universais pelos membros da chamada Civilização Ocidental. É portanto um voyeurismo sádico que nos impele para Zittau e nos entusiasma a cada casa em estado de semi-ruina que encontramos.

A viagem é coisa simples de se fazer. A Students Agency, que de estudantes tem apenas o nome, vende online os bilhetes para os seus autocarros expresso de luxo: cadeiras mais confortáveis do que as de um avião, internet sem fios gratuita, exibição de filmes a bordo, hospedeiras prontas a assistir o cliente, venda de bebidas e snacks a valores simbólicos…. luxo? Sim. Mas a preços nada luxuosos: um bilhete para Liberec num destes autocarros amarelos custa algo como 3 Euros. Depois, é andar uns 100 metros e entrar num comboio regional, daqueles de dois vagões, assemelhando-se a um grande eléctrico, apenas mais vigoroso e robusto. O custo desse segundo troço da viagem variará consoante o número de pessoas no grupo, mas a média andará pelos 2 Euros. Serão 45 minutos de viagem durante os quais os olhos mal se conseguirão desviar da janela: a paisagem é apelativa, com os vastos campos a serem entrecortados aqui e ali por pequenas aldeias ou grupos de casas isoladas, construidas à maneira da região, desenhadas para aguentar os longos invernos e os nevões que com eles chegam.

Uma vez em Zittau é uma questão de explorar livremente. Percorrer as ruas, observando. Os detalhes a notar são muitos, os vestígios daquela outra época que nos fazem sentir numa cidade museu, imobilizada num tempo que se apagou em todo o seu redor, vão-se revelando gradualmente. Na praça central os edíficios ganharam o privilégio raro de uma recuperação condigna. Mais à frente, um restaurante ardeu, algures no passado, e como ficou, assim se encontra. Já numa das vias de saída da cidade, passa por nós um comboio turístico, a vapor, aparição inesperada mas com muito mais sentido do inicialmente intuímos. É a imagem da colisão destes dois mundos. Aquele “cavalo de ferro” expelindo fumo negro de carvão em combustão, correndo ao lado de uma estrada pejada de modernos Volkswagen e BMW’s. Assimetrias. A Alemanha mais oriental é um mar de simetrias, e Zittau não é mais do que o exemplo acabado desses mundos que não se conseguiram compatibilizar ainda com as consequências das quatro décadas de separação.

Mais à frente chegamos ao que foi uma base do NVA (National Volks Armee, ou seja, Exército Nacional Popular). A zona é, também ela, um espelho das assimetrias profundas que se encontram aqui por todo o lado. Lado a lado convivem imensos blocos residenciais de aspecto tristonho, cinzentões, com edíficios recuperados, pintados de cores alegres. As instalações desportivas da base foram convertidas para uso da comunidade. Um palacete, porventura o antigo edíficio de comando, é agora um hotel. Nas áreas mais distantes da base, encontramos os pavilhões onde eram abrigados os carros de combate, e mais blocos. Um par deles têm as portas escancaradas, convidando à exploração dos seus interiores. É uma experiência memorável. Conviver com os fantasmas de outros tempos é sempre didáctico.

Fotos adicionais aqui (côres) e aqui (preto e branco).

A Árvore de Ferro

Hoje fui a Petriny. Não confundir com Petrin. Petriny fica nos confins da cidade, tão longe como os eléctricos alcançam. Mas fui lá, porque queria visitar um pequeno cemitério, tão pequeno como o meu jardim em Portugal. E o facto não mereceria uma entrada neste blog não fosse o cenário com que me deparei (infelizmente a câmara ficou em casa): a rampa de acesso ao portão de entrada encontrava-se coberta por um manto de neve, fresca, branca, suave. Eram bem trinta centímetros de neve, ao longo daquela subida. E tão alva, tão uniforme, que o sentido tridimensional quase que se perdia. Dava dó, arruinar aquela imensidão plana. Mas teve que ser.

À chegada ao portão a magia intensificou-se. Toda a área do terreno se encontrava nas mesmas condições que o acesso. Um cedro anão vergava-se sob o peso da neve, as suas pernadas a tocar o solo, tendo criado pequenos abrigos no interior dos quais o solo aparecia escuro, térreo, sem traço do branco omnipresente. Mas o mais impressionante era aquela campa, centenária, coroada por uma cruz de ferro imponente, com bem dois metros de altura. E ali ao lado tinha crescido uma árvore, tão determinada em ocupar o seu espaço que fez um pacto com o metal ali deixado pelo humano: abraçou-o até ao limite, com o seu tronco. Engoliu-o, vendo-se sair de um e de outro lado as hastes da cruz. Uma fusão inacreditável, total. Agora, tento ganhar coragem para voltar outro dia, equipado com a devida máquina fotográfica. Mas bom seria se caisse por ali outra camada de neve, para o prazer de revisitar ser meticulosamente redobrado.

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